Você ama ou só quer ser útil?

Por que o hábito de se anular para o relacionamento dar certo acaba gerando surpresa quando a conta chega.

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Ana Paula Celestino

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couple sitting on the field facing the city
couple sitting on the field facing the city

Algumas pessoas parecem ter uma habilidade incrível de se encaixar perfeitamente em qualquer cenário. No trabalho, são as que resolvem os incêndios sem reclamar; na roda de amigos, são as que topam qualquer programa; e, no amor, assumem o papel da parceria suuuper legal, aquela que não traz problemas, que compreende tudo e que molda a própria rotina para que o relacionamento funcione sem ruídos.

Existe uma linha tênue, e perigosa, entre a flexibilidade saudável e a hiperadaptação. Para muitas pessoas, o amor e a segurança só parecem possíveis se elas forem necessárias. Cria-se um padrão sutil, para fazer o outro ficar, suprimem-se os próprios medos, engolem-se as pequenas frustrações e colocam-se os desejos pessoais de lado. 

O problema é que esse padrão raramente se limita à vida a dois. Quem opera nesse modo camaleão costuma replicar o comportamento em todas as esferas. São profissionais excelentes que acumulam funções por não saberem dizer não, e amigos dedicados que anulam o próprio cansaço para acolher a dor alheia. A vida passa a ser guiada pela régua da necessidade do outro.

No entanto, o preço de ser a pessoa que nunca dá trabalho é tornar-se invisível em suas próprias necessidades. E é aqui que nasce um dos paradoxos mais dolorosos dessas dinâmicas, quando a balança pesa demais e essa pessoa finalmente desabafa sobre a desigualdade da relação, o outro se demonstra genuinamente surpreso. Para quem estava recebendo o cuidado, tudo parecia perfeito, equilibrado e igualitário. Afinal, como adivinhar um incômodo que nunca foi dito?

Há uma cena emblemática no filme Comer, Rezar, Amar que ilustra com precisão esse desencontro de realidades. No momento em que a protagonista decide partir, o parceiro, numa tentativa desesperada de barganha, diz algo como: "Se você ficar, prometo que vamos comer comida indiana todas as noites". Ao que ela responde, com uma lucidez triste, porém necessária: "Você nunca me pediu para ficar".

Essa resposta carrega uma verdade profunda sobre os relacionamentos. Aquele "pedir para ficar" ao qual ela se refere não é uma súplica de última hora na hora da despedida. É um pacto que se constrói no dia a dia. É o ato de olhar para além da superfície e tentar enxergar as necessidades do parceiro, mesmo aquelas que ele mesmo tem dificuldade de verbalizar, que estão escondidas na bagunça interna que todos nós carregamos.

Amar não é se tornar um quebra-cabeça cujas peças só servem para preencher os espaços vazios de alguém. Uma relação madura e saudável exige a coragem de sustentar a própria identidade, com todos os seus relevos, vontades e limites. Afinal, para que o outro possa nos pedir para ficar por inteiros, nós precisamos, primeiro, parar de nos dividir para caber no mundo dele.