Sim Senhor

Da defensiva para o mundo: O que Sim Senhor nos ensina sobre a autossabotagem, o medo de se arriscar e a beleza de se permitir viver.

PÍLULAS DE TRAVESSIA

Ana Paula Celestino

6/3/20262 min read

Esse é daqueles filmes que no começo você dá risada do desespero do personagem e no fim percebe que já viveu vários dias exatamente igual a ele. É uma comédia super leve, mas que cutuca uma ferida real: a nossa tendência de nos fecharmos no casulo quando as coisas ficam difíceis. Mas, não difere muito da nossa cabeça, não é? Quantas vezes a gente recusa um convite, adia um plano ou foge de uma oportunidade simplesmente porque o não parece mais seguro e confortável? Em suma, ele é divertidíssimo, faz a gente olhar para a nossa própria rotina e questionar se estamos realmente vivendo ou apenas assistindo os dias passarem.

A Trama

Como retomar o controle da vida quando você se transformou em uma máquina de dar desculpas? Carl Allen está estagnado após um divórcio, recusando sistematicamente qualquer interação social e se isolando no sofá. Tudo muda quando ele vai a um seminário de autoajuda e faz um pacto de validade duvidosa, mas transformador: ele é obrigado a dizer sim para absolutamente toda e qualquer oportunidade que surgir. A partir daí, sua vida vira de cabeça para baixo, abrindo portas para novos romances, hobbies bizarros e enrascadas inacreditáveis.

A Travessia

A jornada aqui é um movimento de expansão. O filme se move através do contraste escancarado entre a rigidez do isolamento e o caos da espontaneidade. A travessia de Carl nos mostra que, para mudar a nossa realidade, precisamos mudar o nosso comportamento primeiro, mesmo quando a mente está gritando para a gente recuar. Ao aceitar o inesperado, desde aprender outra lingua até pilotar uma moto, ele quebra a inércia que o mantinha prisioneiro de si mesmo.

O Olhar da Psi

Nesse filme dá para explorar vários temas além do humor, mas me cativa a transição sutil da apatia para a vivacidade. Na clínica, é muito comum atendermos pessoas que estão vivenciando o que a psicologia chama de desamparo ou isolamento defensivo, aquele estado onde, para evitar a frustração ou a dor, a pessoa começa a dizer não para o mundo. O filme funciona como uma metáfora caricata, mas muito honesta, sobre a ativação comportamental.

Porém, a grande virada psicológica da história acontece quando Carl percebe que o sim forçado, por obrigação ou superstição, perde o sentido. A saúde mental aqui não é sobre aceitar tudo de forma cega (o que seria uma falta perigosa de limites), mas sobre recuperar a nossa capacidade de escolha. O verdadeiro amadurecimento de Carl vem quando ele entende que o sim só tem valor real quando ele também tem o direito e a autonomia de dizer não. É sobre estar aberto à vida, mas com os pés fincados na própria verdade.

Para Levar na Mochila

"O mundo é um parque de diversões. Você sabe disso quando é criança, mas em algum momento todo mundo esquece."

A reflexão para hoje é: Quais nãos você tem distribuído por aí que, no fundo, são apenas o seu medo de falhar ou de se machucar falando mais alto? A terapia nos ajuda a identificar as barreiras que construímos ao nosso redor e nos encoraja a dar pequenos, mas significativos, sims para aquilo que realmente nutre a nossa alma e nos conecta com o mundo.