Sem fogos de artifício.

Nem toda felicidade é barulhenta.

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window view of airplane during golden hour
window view of airplane during golden hour

Esse texto vai começar de uma forma e terminar de outra bem diferente... vem comigo.

Recentemente me peguei pensando que houve um período de tempo em que fiquei num estado de espírito difícil de explicar, o que é bem irônico para quem passa o dia ajudando os outros a entenderem a própria mente. E a sacada de que alguma coisa havia mudado não veio com nenhum grande evento. Foi algo sutil. Do nada, em um dia qualquer, me peguei cantando e dançando no banho. Foi ali que me dei conta de que a felicidade tinha voltado.

O mais engraçado é que naquela semana as coisas nem estavam tranquilas. Pelo contrário, tinha um pequeno caos instalado. Só que o desconforto não me incomodava. Eu conseguia ver a luz no fim do túnel. Há tempos não me sentia assim, sabendo exatamente onde pisar e enxergando as possibilidades que a vida estava me mostrando.

Fiquei pensando comigo, o que esperamos da felicidade? Que tipo de sinais?

Vou traçar um paralelo aqui, não muito feliz em termos de comparação, mas você vai entender onde quero chegar.

Quando estamos bem, esperamos grandes sinais da vida, uma explosão de felicidade. Digamos que a tristeza é muito marcante, tal qual um acidente de avião. A felicidade é mais singela, pois ela muitas vezes está camuflada na normalidade.

Pense aqui comigo, estamos acostumados a validar quase que instantaneamente grandes eventos, sejam eles de qualquer natureza. Nenhum jornal começa sua programação com a notícia de que milhões de pessoas acordaram, tomaram café com calma, não bateram o dedinho na quina da cama e chegaram ao trabalho em segurança. Isso não vende jornal, nãoaudiência, não dá clique. O cérebro humano não liga para a calmaria.

Nós somos fascinados pelo estrondo. Se um avião cai do outro lado do mundo, paramos o que estamos fazendo. Um acidente de avião é grandioso, triste, trágico, pirotécnico. Ele se sobressai. Ele chama a atenção das mais diferentes maneiras.

A tristeza faz exatamente a mesma coisa. Quando a melancolia bate, ela não pede licença. A tristeza é um desastre aéreo, barulhenta, marcante e impossível de ignorar.

Por causa disso, passamos a vida esperando que a felicidade apareça com a mesma grandiosidade. Queremos uma explosão de fogos de artifício, um bilhete premiado da loteria ou um sinal divino. Queremos a euforia.

Curiosamente, estatisticamente as chances de você morrer em um acidente de carro são incomparavelmente maiores, estimadas em cerca de 1 em 95 a 107 ao longo da vida. Enquanto a chance de sofrer um acidente fatal de avião é de aproximadamente 1 em 10 milhões. (Isso aqui foi apenas a título de curiosidade mesmo).

Mas o que quero dizer é, diariamente muitas pessoas morrem de acidentes de trânsito, no Brasil atualmente, cerca de 67 pessoas por dia. Mas por que não sentimos o mesmo apelo ou o mesmo medo quando comparamos aos acidentes de avião? Existem muitas explicações, mas vamos nos ater a esta por hora.

Desastres aéreos ganham as manchetes do mundo inteiro por dias; batidas de carro acontecem isoladamente e raramente viram notícia nacional, mas comumente são noticiadas de forma regional. O avião concentra centenas de vítimas em um único segundo; o carro dilui as mortes silenciosamente ao longo dos dias.

Andar de carro é uma rotina banal. Você entra, coloca o cinto, engata a marcha e vai. Estatisticamente, é ali que a vida pulsa com mais risco, mas você não sente medo porque está no controle. É no trânsito silencioso dos dias que a vida acontece. A felicidade autêntica é igualzinha a uma viagem de carro, ela está camuflada na mais pura normalidade.

Felicidade é o cafuné no sofá enquanto o filme corre ao fundo; é o gosto do café que ficou incrivelmente bom hoje cedo; é o semáforo que abre bem na hora que você se aproxima (satisfação total); a música antiga que toca no rádio; a saúde que não reclama; o boleto pago cinco minutos antes do vencimento. A felicidade não faz barulho. Nós nos impressionamos com os grandes desastres e esquecemos de celebrar os pequenos milagres diários.

Se sua vida está transitando pela mais perfeita tranquilidade, agradeça. Não espere por grandes acontecimentos; escolha viver os momentos de calmaria, pois, em algum momento, a tristeza baterá novamente à porta, e ela vai, a vida é assim. Mas, enquanto esse dia não chega, viveremos intensamente cada instante de simplicidade.

Quer aprofundar? Segue aqui um compilado super interessante.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

BAUMEISTER, Roy F. O mal é mais forte que o bem? In: BAUMEISTER, Roy F. (Org.). Forças do bem e do mal na psicologia. São Paulo: Cultrix, 2005.

SLOVIC, Paul. A percepção de risco. Tradução de Mauro Silva. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2010.

LYUBOMIRSKY, Sonja. A ciência da felicidade: um método prático para ter a vida que você deseja. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. Rio de Janeiro: Campus, 2008.