Sabedorias silenciosas
Catando feijão na mesa da cozinha.
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Ana Paula Celestino
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Recentemente estava escolhendo pedras para colocar em uma parede no jardim, escolhendo mesmo, literalmente, tentando encontrar a pedra com a melhor forma, as melhores cores, olhando uma a uma, e comecei a pensar como as pessoas no passado (não tão distante) precisavam escolher feijão. Catar feijão, como os antigos diziam. Interessante como alguns gestos guardam sabedorias. Só um adendo, nas duas últimas semanas tenho falado mais sobre pensamentos e suas influências, talvez porque tenho me dedicado mais a esse campo de estudo, tanto no campo científico, quanto filosófico. É claro que a saúde emocional não se resume ao que pensamos. O corpo sente, a realidade pressiona com seus problemas diários e as circunstâncias da vida têm um peso que não da pra ignorar. Falar sobre o cuidado com os pensamentos não é simplificar essas dores humanas nem vender fórmulas de controle, é apenas convidar a olhar para um pedaço do processo que está ao nosso alcance praticar no dia a dia.
O ritual em si é simples, espalhar os grãos, afastar o que não serve e recolher o que está bom para o cozimento. A gente meio que aprende no dia a dia que a vida mental é um pouco assim também, um exercício constante de seleção. Checa o pensamento que chega, separa o que é relevante, descarta aquele que é só ruído e segue em frente. Mas a nossa mente não é uma esteira de produção industrial, e nós não precisamos ser totalmente rígidos, mas sim vigilantes.
Estudos na Análise do Comportamento trazem como reflexão que os pensamentos não são verdades absolutas, nem ordens a serem seguidas; podem inclusive ser respostas automáticas da nossa mente, coisas construídas ao longo de tudo o que já vivemos. A própria ciência mostra que tentar suprimir ou expulsar à força um pensamento desconfortável costuma produzir o efeito oposto, ele ganha ainda mais peso.
Se eu te disser para não pensar em um elefante rosa, no que você está pensando agora?
Por isso, em vez de simplesmente descartar o que incomoda, vale a pena olhar para o pensamento sem pressa. Não para remoer ou se demorar na dor, mas com a curiosidade. Isso é importante para notar a nossa linguagem interna, observar de onde vem, qual necessidade ele aponta ou o que ele tenta nos avisar.
E, mais do que aperfeiçoar a habilidade de analisar esses pensamentos, analisar também o terreno que tem cultivado esses grãos. Para que a vida produza dias mais leves, não basta ter um processo rigoroso de escolha, é preciso cuidar da terra, do espaço mental onde sua mente pisa. Cuidar dos nossos pensamentos é, acima de tudo, cuidar das nossas ações e do ambiente onde estamos inseridos. É regar a rotina com generosidade, respeitar o nosso tempo, aceitar que haverão períodos de seca, mas que também é possível nutrir a mente e a vida, com descanso, acolhimento e conexões significativas.
Cuidar do plantio não por uma cobrança diária de perfeição ou por um controle absoluto, mas pelo desejo sincero de cultivar uma vida mais consciente e feliz.
No fim das contas, observar o que passa pela mente sem julgamento é também lembrar da importância de cultivar a si mesmo, e esse é um processo paciente, contínuo e, acima de tudo, gentil.
Se você tem interesse em saber mais sobre, abaixo algumas sugestões bacanas.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente (S. M. M. da Rosa, Trad.; M. Valentim, Rev. Téc.; 2ª ed.). Artmed. (Obra original publicada em 2012).
Hayes, S. C. (2019). Uma Mente Liberta: Como se Voltar para o que Importa. Editora nVersos.
Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads.; 11ª ed.). Martins Fontes. (Obra original publicada em 1953).
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