Quem merece a sua louça fina?
Sobre o hábito de guardar o melhor de si para o amanhã.
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Ana Paula Celestino
2/6/20262 min read
Quase toda família tem um ritual parecido, aquela louça bonita guardada no armário que só sai de lá em festas importantes, ou o lençol de fios nobres reservado exclusivamente para as visitas. Sem perceber, a gente cresce aprendendo a confinar o que temos de melhor ao território da ocasião especial. Mas existe uma pergunta invisível por trás desse hábito que raramente nos fazemos: por que nós mesmos nunca somos a ocasião especial?
Tratar o presente com o tempo que nos sobra, nos privando do que é especial e confortável, esconde a sensação sutil de que não somos dignos de desfrutar daquilo que há de melhor.
O problema é que esse comportamento não fica restrito aos armários. Nós fazemos exatamente a mesma coisa com a nossa vida. Guardamos a nossa melhor energia, o nosso foco e o nosso tempo para o trabalho, para os prazos e para atender às demandas de todos ao redor. Entregamos um banquete de dedicação para o mundo exterior e, quando voltamos para nós mesmos no fim do dia, consumimos apenas o que sobrou de uma bateria cansada. Olhar para si mesmo e investir nos próprios desejos passa a ser visto como egoísmo.
Essa dinâmica de se colocar sempre em segundo plano em prol do bom funcionamento do todo é o que faz muitos sonhos morrerem na gaveta.
Me lembro da minha mãe, ela dominava a arte de manter o ritmo e o equilíbrio da casa. Cortava o cabelo de todo mundo com uma habilidade natural, assim como costurava roupas. No entanto, guardava o desejo de fazer cursos profissionais nessas áreas. Mas nunca era o momento certo. Hora faltava tempo, hora o dinheiro faria falta no orçamento familiar. Para não afetar o ritmo das coisas e manter a engrenagem funcionando, ela abriu mão, sem perceber, mantendo esses desejos apenas no campo da imaginação. Mantinha o sonho guardado, como a louça fina que espera um dia especial. Ela partiu cedo, aos 49 anos, sem ter tido a chance de estrear esses projetos.
Essa história me convida sempre a buscar um olhar de mais equilíbrio. Cuidar de si mesmo não significa abandonar o outro ou deixar de investir na família, nos amigos e na carreira. A mesma louça fina pode, e deve, ser usada em mais de uma ocasião. Ela serve para receber quem amamos com generosidade, mas serve também para nos nutrir em uma terça-feira comum.
O que faz de você um bom anfitrião, seja na sua casa, seja na vida, é a qualidade da sua presença. E ninguém consegue ser uma presença acolhedora para o outro se estiver vivendo na escassez de si mesmo. O cuidado precisa começar de dentro para fora.
Viver não é um ensaio geral para um espetáculo que vai acontecer no futuro. Se você passa a vida esperando as condições climáticas ideais e a estabilidade absoluta para começar a investir em você, o tempo simplesmente passa.
Que a gente possa honrar quem veio antes de nós e não teve a chance de escolher, fazendo escolhas mais corajosas hoje. Use o perfume. Faça o curso. Use o lençol bom hoje à noite. Entenda, que o momento certo é o momento em que você decide que também merece habitar a sua própria história.
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