Por que é tão difícil desistir daquilo que já deu errado?

Entenda um dos mecanismos psicológicos que sabotam nossas decisões no dia a dia.

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Antes de cursar Psicologia, me aventurei pelo curso de Administração. Estava na metade do curso quando percebi que não era aquilo que queria. Eu poderia dizer que foi difícil decidir parar, mas, na verdade, não foi. Eu não sabia bem o que queria, mas sabia exatamente o que não queria. Então, abandonar aquela jornada não me parecia necessariamente uma perda.

Mas sei que não é assim sempre, nem comigo e nem com ninguém. Algumas decisões são mais fáceis do que outras. Existe uma parcela muito significativa de pessoas que se demoram em uma decisão na tentativa de aliviar a dor de ter que fazer algo sobre si mesmas, ou sobre algo que dói. E é sobre essa turma que gostaria de falar um pouquinho hoje. Vem comigo...

Imagine a seguinte situação, uma grande empresa decide construir um avião revolucionário. Eles investem 9 milhões de dólares no projeto. Faltando apenas 1 milhão para a conclusão, um concorrente lança um avião muito mais moderno, rápido e barato. O projeto original, portanto, se torna obsoleto antes mesmo de nascer.

O psicólogo Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, resgata em seu famoso livro um estudo clássico dos pesquisadores Hal Arkes e Catherine Blumer [ScienceDirect, ResearchGate] que fez exatamente essa pergunta para vários gestores: você gastaria esse último milhão para terminar o avião, mesmo sabendo que ninguém vai comprá-lo?

Surpreendentemente, 85% das pessoas responderam que sim. Elas preferiram queimar mais dinheiro em um projeto sabidamente fracassado a parar ali.

Olhando de fora, parece uma loucura. Mas a verdade é que nós fazemos algo muito parecido nas nossas vidas, quase todos os dias.

Substitua os milhões de dólares por anos de vida, afeto ou energia, e você verá o mesmo padrão acontecer. Isso se repete, por exemplo, naquele relacionamento que já não traz conexão, respeito ou alegria, mas no qual a pessoa insiste porque pensa que não pode terminar por já estar junto daquela outra há anos.

Acontece também na carreira, quando a persistência em uma faculdade ou profissão que gera profunda infelicidade é sustentada pelo argumento de que já se gastou muito tempo naquilo e que, agora, é preciso ir até o final.

Ou mesmo escondido no hábito de continuar comendo um prato que já te saciou, e que nem está tão gostoso, só porque a conta do restaurante foi cara.

Em todos esses casos, continuamos gastando o nosso tempo, energia e afeto em algo que já faliu.

Por que nossa mente nos prega essa peça?

Para a psicologia, um dos motivos é que isso não acontece por falta de inteligência, mas sim por um impulso muito humano, agimos assim porque fomos ensinados (e condicionados) a evitar a dor do arrependimento a curto prazo.

Quando você decide interromper um projeto, terminar um relacionamento ou mudar de carreira, o impacto é imediato. Você precisa encarar o desconforto de admitir que aquilo não deu certo, lidar com a frustração e, às vezes, com o julgamento das pessoas ao redor. Essa conta chega na hora e custa caro emocionalmente.

Para fugir desse desconforto imediato, nossa tendência pessoal é continuar fazendo o que já fazíamos. Dobrar a aposta no erro nos dá a falsa sensação de que o passado ainda pode ser salvo, quando na verdade estamos apenas adiando o problema e aumentando o prejuízo lá na frente.

A grande lição que fica, e que ajuda muito no processo de autoconhecimento, é entender que o tempo, o dinheiro e o afeto que você já investiu ficaram no passado. Eles não vão voltar, não importa o quanto você insista. Eles são o que a ciência chama de custo irrecuperável.

Bancar as próprias escolhas exige uma coragem imensa. Sim, decidir caminhos novos dói e dá medo. Mas é preciso lembrar que não escolher nada também é uma escolha. Quando nos omitimos e deixamos a vida correr no piloto automático para evitar o peso de uma decisão, acabamos nos colocando em uma posição de vítima das circunstâncias, onde o mundo decide por nós e nós apenas sofremos as consequências.

A única pergunta que realmente importa para o seu bem-estar hoje é se vale a pena investir os seus próximos dias, meses ou anos nisso.

Olhar para frente exige coragem para aceitar as perdas do caminho, mas é a única forma de liberar espaço para o que realmente funciona.

E você? Olhando para a sua vida hoje, consegue identificar se existe algum projeto onde você ainda está insistindo apenas pelo tempo que já dedicou a ele?

Deixei o livro e o estudo científico que usei como base para este texto aqui, vem conferir ;)

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. (Capítulo sobre Vieses e a Falácia dos Custos Irrecuperáveis) (ScienceDirect, ResearchGate).

ARKES, Hal R.; BLUMER, Catherine. The psychology of sunk cost. Organizational Behavior and Human Decision Processes, v. 35, n. 1, p. 124-140, 1985 (ScienceDirect, ResearchGate).