Por que a gente assiste o mesmo filme mil vezes?

Um guia científico para justificar o fato de você já saber as falas de Shrek de cor.

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Ana Paula Celestino

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black and white the north face tag
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Nem sei quantas vezes já assisti a Shrek (o 1 e o 2... os outros não me interessam muito). Assim como não sei quantas vezes assisti a mais meia dúzia de filmes que me acompanharam ao longo da vida.

Previsibilidade... dá um alívio gigantesco! Mas há também a magia de se reconectar com experiências anteriores e senti-las como quem ainda não sabe o valor de cada uma delas. Decorei falas, incluí músicas nas minhas preferências, tudo isso porque fazia, e ainda faz, sentido vivenciar esses aspectos.

Particularmente, eu não gosto de filmes tristes. "Ah, mas você precisa assistir "O Milagre da Célula 7" eu me acabei de chorar!". Pronto. Você acabou de me convencer a não assistir! É uma preferência... e sigamos.

Lembrei aqui do filme "À Procura da Felicidade". Gente, eu fiquei destruída vendo a cena dele dormindo com filhinho no banheiro do metrô. Mas o meu verdadeiro trauma foi o final, o filme passou 90% do tempo moendo o protagonista e, quando ele finalmente ganha o emprego e a vida vai engrenar... o filme ACABA?! Péra aí, eu investi todas as minhas energias na desgraça alheia e não ganhei nem dez minutos de glória e ostentação? Passar bem.

Por isso meu filme de conforto é Shrek, se bober até um A Lagoa Azul, mas raramente será um filme triste. "Ainnn, mas a vida é sobre superar obstáculos..." Eu sei! Por isso mesmo quero a fantasia de dois adolescentes que moram 15 anos numa ilha paradisíaca sem nunca precisar de um bactericida para um arranhão, ou mesmo um antibiótico. Isso sim é entretenimento de qualidade, o puro suco da irrealidade!

Isso intriga algumas pessoas, mas soa especialmente natural para outras. Como você consegue assistir ao mesmo filme tantas vezes?

A resposta é simples, às vezes eu não quero pensar, quero apenas um pano de fundo e algo que já sei como termina.

Pessoas repetem filmes, músicas, séries e livros por diferentes motivos, alguns não tão óbvios quanto outros. E a ciência têm olhado de perto para isso. O que fazemos tem até nome técnico, reconsumo de mídia ou revisitação narrativa. E os bastidores psicológicos dessa repetição são bem interessantes. 

Quando assistimos a um filme inédito, nosso cérebro trabalha bastante. Ele precisa entender quem é quem, entender a trama, lidar com a tensão da dúvida e processar reviravoltas. É divertido, mas consome energia mental!

Já quando você dá play naquele seu filme de estimação, não há incertezas. Você sabe exatamente a hora em que o conflito acontece, a piada que vem a seguir e o final feliz que te espera. Eu chamo isso de eficiência emocional, uma forma rápida e segura de baixar os níveis de estresse e restabelecer o equilíbrio. 

Estudos sobre comunicação e memória mostram que filmes não são apenas entretenimento, eles funcionam como âncoras da nossa história.

Rever uma animação ou aquela comédia de estimação pode nos ajudar a resgatar sensações de onde você estava, com quem você estava ou de como a vida parecia na primeira vez em que assistiu. É um encontro gostoso e acolhedor com versões anteriores de você mesmo.

O filme é o mesmo, mas você mudou. Assistir a uma mesma história em fases diferentes da vida é uma experiência completamente nova. De repente, você nota um detalhe no cenário que nunca tinha visto, entende uma nuance que passou batido ou passa a simpatizar com um personagem de um jeito diferente. É um exercício bonito de perceber o quanto a gente cresceu e amadureceu ao longo do caminho.

É claro que, às vezes, a gente vai querer, e precisar conhecer novos filmes, novas histórias, novos mundos. A vida pede novidade. Mas quando você não quiser, não precisar ou simplesmente achar de bom tom relembrar aquele filme que está sempre fresco na memória... fique totalmente à vontade.

A gente sabe que tá tudo bem. Afinal, no fundo, no fundo, nem é sobre revisitar o filme, é sobre revisitar você.

E ó, mesmo que eu tenha mudado, amadurecido e visto o mundo por outros ângulos, eu não vou assistir a À Procura da Felicidade de novo. E ponto final. 

Então prepara a pipoca, pega o seu cobertor favorito e aperta o play naquela história leve que você já conhece de cor. O seu o seu coração agradece!