Por onde anda a sua atenção?

Conselhos de um livro de velho.

BLOG

3 min read

A white water lily with a yellow center against a dark bokeh background
A white water lily with a yellow center against a dark bokeh background

Antes de tudo, um aviso amigável, este texto não tem a pretensão de converter ninguém, propor novos dogmas ou vender fórmulas mágicas. Como psicóloga, olhar para filosofias orientais ou tradições milenares, me ajuda a conhecer um pouco mais sobre a humanidade, que inclusive já vem tentando entender o funcionamento da mente há um bom tempo.

Recentemente conversava com uma conhecida sobre o Dhammapada, que é um livro que reúne os ensinamentos práticos compilados em forma de versos poéticos, ele funciona como uma espécie de manual de bolso para a vida cotidiana. A grosso modo, o seu foco central é guiar o leitor no desenvolvimento do autocontrole, da ética, da meditação e do domínio sobre os próprios pensamentos para alcançar a paz interior. Dito isso, algumas passagens que falam sobre vigilância me trouxeram algumas reflexões. Recentemente ouvi uma palestrante perguntar se conseguimos rastrear por onde anda a nossa atenção.

Parece simples de responder, não é mesmo? Não... fiquei paralisada. Pois, percebo que a atenção tende a ser facilmente percebida quando a perdemos ou quando estamos depositando nela toda a nossa energia para nos manter engajados em alguma atividade. Mas, cotidianamente muitas vezes meus pensamentos voam por aí, ao sabor do vento. Imagino que em alguma medida isso também deva acontecer com você.

Às vezes a sensação que eu tenho é como se eu fosse um carro e minha mente o rádio do carro, sabe quando o rádio do carro liga ao mesmo tempo que o carro? Então...é isso que sinto, o carro nem ligou direito e o rádio já está lá, a todo vapor. Essa quantidade de pensamentos segue seu fluxo e sem me dar conta às seis da manhã já estou pensando em coisas que não tinham a menor necessidade. Eu desligo o rádio? Não. É aí que ficou minha reflexão, que hábito foi esse que eu cultivei?

Uma pergunta sincera, quantas vezes no seu dia você se pega criticando algo? Faça uma observação, essa inclusive é uma sugestão que ouvi recentemente, coloque um alarme no seu celular em três horários diferentes e quando ele tocar pare e observe no que você estava pensando. Sabe o que eu observei fazendo isso? Que temos muito pouco controle da nossa atenção, pouca vigilância para os nossos pensamentos e comportamentos.

A questão aqui não é gerar uma hipervigilância, um estressor a mais. Mas sim, olhar por onde anda seus pensamentos. Por exemplo, se você se pega criticando algo a maior parte do tempo, olhando para o mundo com esses olhos, há uma grande chance de você se tornar (se já não for) um critico feroz de si mesmo também.

Importante analisar se não estamos julgando como o colega de trabalho reage ao estresse, como o parente educa os filhos ou como o desconhecido lida com os próprios tropeços. Se não perdoamos a hesitação do outro, dificilmente teremos paciência com as nossas próprias dúvidas, o crítico da vida alheia constrói, sem perceber, um tribunal. A ironia é que tentamos às vezes nos colocar em um pedestal de sabedoria que não temos e acabamos presos na cela da nossa própria autocrítica.

Acho que nesse contexto, a verdadeira vigilância é sobre o que escolhemos alimentar. Aquilo em que depositamos a nossa atenção ganha força e espaço, se alimentamos rotinas mentais no automático, sejam elas de julgamento, de ruminação, de reclamação ou a da busca constante por validação, treinamos a nossa mente para reforçar exatamente esses padrões. Por outro lado, quando nos policiamos com carinho para redirecionar o foco ao nosso próprio amadurecimento, começamos a cultivar hábitos mentais infinitamente mais saudáveis e conscientes.

Foi só uma reflexão mesmo, mas diz aí...por onde anda a sua atenção? Por onde andam seus pensamentos?