O vazio entre o que fomos e o que seremos.

Quem somos nós quando tudo está mudando?

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Ana Paula Celestino

6/23/20263 min read

person walking on snowfield
person walking on snowfield

Há um momento bem específico no meio de qualquer grande mudança , seja uma transição de carreira, o fim de um ciclo ou uma mudança de casa, que ninguém nos avisa que vai doer tanto. É o momento em que você percebe que a sua antiga versão já não serve mais, mas a nova ainda parece um casaco grande demais, que não se ajusta ao seu corpo. Você não se reconhece mais no ponto de partida, mas também não se sente dono do ponto de chegada. Você está no limbo.

O plano inicial era lindo no papel. A gente idealiza o resultado, mas esquece que o meio do caminho é um território sem mapa. Nesse espaço, é comum experimentar uma sensação profunda de desamparo e solidão. A rotina muda, os papéis mudam, e as certezas que nos sustentavam desaparecem. Esse não lugar mexe com a nossa personalidade; nos sentimos frágeis, oscilando entre a nostalgia do que era seguro e o medo do que está por vir. É o peso existencial de descobrir que, para construir algo novo, precisamos primeiro tolerar o desconforto de ficar desabrigados por um tempo.

Sei que essa analogia já está meio batida, mas ela exemplifica muito bem, a lagarta não vira borboleta num piscar de olhos. Dentro do casulo, existe um período em que ela não é mais lagarta, mas ainda não tem asas; ela se desfaz em uma espécie de sopa biológica, uma matéria que perdeu a forma antiga para poder ganhar a nova. Estar no limbo existencial é exatamente isso. É estar nessa fase. Os altos e baixos desse período não são defeitos do percurso; são os testes de resistência da nossa identidade. O desamparo surge porque queremos a segurança da terra firme, mas a travessia exige que a gente aprenda a caminhar no vazio.

E aqui nessa reflexão não estou abordando a questão de olhar com gentileza para o processo, mas olhar como esse não lugar que também faz parte do processo, gera uma espécie de despersonalização. Tentamos encontrar caracteristicas comuns que possam pertencer tanto àquela pessoa que fomos, quanto naquela que está por vir, às vezes falhamos, às vezes acertamos, o fato é que talvez mesmo se houvesse uma cartilha não ficaríamos satisfeitos, somos apegados demais para aceitar que as mudanças dificilmente acontecem sem doer.

E esse desamparo que sentimos muitas vezes se estende às nossas relações. Ao longo dessa jornada, você vai perceber que as pessoas ao seu redor reagem de formas muito diferentes ao seu momento de transição. Haverão aqueles que conseguem compreender o seu silêncio, o seu sumiço ou o seu cansaço; pessoas que seguram a sua mão mesmo sem entender direito para onde você está indo.

Mas haverão também os que não saberão como agir. Alguns tentarão te puxar de volta para quem você era antes, porque aquela versão antiga era mais previsível e confortável para eles, enquanto outros despejarão as próprias ansiedades sobre o seu futuro. E está tudo bem. É natural e esperado que seja assim. Cada um lida como pode com os processos de mudança, sejam eles próprios ou compartilhados. Ver a sua estrutura balançar muitas vezes aciona os medos que o outro tem de ver a própria vida mudar.

O grande vilão desse entrelugar é a nossa pressa em obter certezas. O ser humano tem uma intolerância quase física ao incerto. Para algumas pessoas, não saber o que vai acontecer no mês que vem, ou não ter uma resposta pronta quando perguntam algo, é devastador. Queremos pular a fogueira, queremos o gabarito, queremos a garantia de que o esforço vai valer a pena. Não temos!

É nessa pressa que a gente se atropela. Esquecemos que acolher a dor desse desconforto e aceitar que alguns dias serão consideravelmente melhores do que outros. Não existe obrigatoriedade de estar bem 100% do tempo, muito menos quando a sua vida está com as vigas expostas. Há dias de potência, onde a visão do futuro é nítida; e há dias de recolhimento, onde a única coisa que dá para fazer é tolerar a névoa. Ambos têm o mesmo valor no seu amadurecimento.

Se você se olha no espelho hoje e não sabe direito quem é, se o que você era ficou distante e o que você quer ser ainda parece uma miragem, saiba que esse não reconhecimento faz parte.

Tolerar o limbo, com toda a sua névoa, a incompreensão alheia e os dias difíceis, é talvez o trabalho mais corajoso do autoconhecimento. Afinal, é preciso coragem para sustentar o vazio antes que a nova estrutura se firme. Quem é você enquanto o seu próximo capítulo ainda não começou?